Anúncio de nova campanha da Ellus é constrangedor

Eu gostaria de saber qual foi a revolução iniciada por Chloë Sevigny no cinema “cult”. A pergunta deve se desdobrar em outras, afinal, de que se trata o tal cinema “cult” mencionado no comercial da Ellus que está circulando por várias revistas brasileiras, além de outdoors? Essa definição de cinema “cult” já ficou pra trás a muito tempo. Chloë fez alguns filmes independentes e apareceu pela primeira vez em Kids, de Larry Clark, que mostrou de maneira assustadora os ritos de passagem para a idade adulta de adolescentes novaiorquinos na década de 90. O filme é independente, ou seja, realizado com financiamento de fora dos estúdios de Hollywood. Porém Chloë não fez nada de “revolucionário” no filme além de atuar, como o fez também a belíssima Rosário Dawson, que participou de outros projetos ditos “cult”, como filmes de Tarantino ou Kevin Smith. O filme é revolucionário sim, por mostrar com crueza a adolescência. Mas da mesma forma o fez Gus Van Saint anos antes em Garotos de Programa e em Drugstore Cowboy, só pra citar um exemplo.
Alguém pode indicar a célebre cena de sexo oral explícito executada com “maestria” por Chloë no filme The Brown Bunny, de Vincent Gallo, para definir a atriz como revolucionária do cinema “cult”. Pode ser, mas nesse caso Edie Sedgewick foi muito além décadas antes atuando como ela própria nos filmes de Andy Warhol, o que mostra que as atuações de Chloë não têm nada de “revolucionárias”.
O que Chloë fez foi se colocar muito bem na mídia como uma “it girl”, já que trabalhou para uma revista de moda no começo da carreira, fez produção de moda e trabalha esporadicamente como consultora de grifes como a Immitation of Christ e a recém lançada Opening Ceremony, que debutou na última semana de moda de Nova Iorque. Na verdade o link de Chloë com a moda tem a ver com o próprio business da moda, e não com o cinema “cult”, no qual ela nunca fez nenhuma revolução. Mesmo que tivesse feito, todo status de “it girl” de Chloë ficou lá pra trás, nos anos 90. Hoje ela está numa série da HBO (Big Love) e em filmes de Hollywood, além de fazer aparições em eventos de moda, como da Dolce & Gabanna (onde ela realmente desfilou). Não é nem a primeira nem a única atriz que faz isso. Porém o status de “it girl” ficou seriamente comprometido depois que ela apareceu no desfile da Ellus apenas para ser “homeageada” num país onde ninguém a conhece. Entrou na passarela para receber aplausos sem nem ter desfilado, tal qual Nicole Kidman para Chanel. Algum problema? Nenhum, só que Nicole não tem nada de independente, é uma das maiores estrelas de cinema de todos os tempos, nada a ver com o clima “cult” conferido a Chloë.
O comercial da Ellus é muito cafona, com Chloë segurando uma bolsa tal qual os anúncios da Vitor Hugo, aquela grife que imita Louis Vuitton e é sucesso estrondoso no Brasil. A foto parece aquela coisa: “segura a bolsa aí pra justificar o cachê e a passagem, hein?”. E a frase que assina o comercial, “Chloë Sevigny, a atriz que revolucionou o cinema cult”, só pode impressionar pessoas como este editor… Porque de “cult” não tem nada a presença de Chloë na campanha da Ellus.
